Hitomi Hoshino, mestre do haiku morre aos 103 anos

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Hitomi Hoshino recebe a homenagem Hakujusha Hyosho do diretor do Bunkyo, Celso Mizumoto – 25 de junho de 2017 - Foto de Gabriel Inamine

Faleceu, na madrugada do ultimo dia 17 de outubro, vítima de parada cardíaca, o mestre de haiku, Hitomi Hoshino (nome artístico de Akira Hoshino). Tinha 103 anos, era viúvo de Hissa, com quem casou em 1942, deixou as filhas Mary, Miti e Emi e o filho Paulo.

Nasceu na cidade de Matsue (província de Shimane), em 25 de julho de 1918. Chegou ao Brasil com a família, em 1930, aos 11 anos de idade. Faleceu em 17 de outubro de 2021, aos 103 anos de idade. Atuou, com toda dedicação, durante quase um século – como uma “missão de vida” -, para a divulgação do haiku no Brasil como sucessor de seu mestre pioneiro Nempuku Sato.   

Ele foi da primeira geração de discípulos e aprendeu os caminhos desse tradicional poema japonês – haiku (1) quando ainda morava em Pompéia, aos 25 anos de idade (1943), nos encontros que Nempuku Sato realizava em diferentes núcleos de imigrantes japoneses do Estado de São Paulo e Paraná.

Hitomi Hoshino, ao lado de Raul Takaki e Masayuki Fukasawa, respectivamente do presidente e do editor do Nikkei Shimbun – 61º Prêmio Paulista, 18 de abril de 2017

(1) Haiku é composto de 17 sílabas, dividido em 3 estrofes de 5/7/5 sílabas cada. Considerado um poema curto, ele capta um momento na vida do poeta. No Brasil, foi um importante instrumento para manter a identidade dos imigrantes japoneses e apoiar seus sentimentos ao longo de sua vida em um país diferente ao de sua terra natal. (Vide mais informações no link: ndl.go.jp/brasil/pt/column/haiku.html).

A partir disso, nunca mais largou seu bloco de anotações onde registrava em forma de haiku os momentos de inspiração. “Não consigo calcular quantos haiku escrevi”, afirmou Hitomi Hoshino em entrevista ao editor do Nikkei Shimbun, Masayuki Fukasawa, em dezembro de 2016.

“Nunca tomei alguma bebida alcoólica. A minha diversão é escrever haiku. Não tenho outros hobbies, apenas me concentro nos haiku”, continua, admitindo que, como discípulo direto de Nempuku Sato “aprendeu a língua japonesa por meio do haiku e refinou sua sensibilidade como japonês”. 

Ao editor, ele contou que “o melhor de ser poeta de haiku é quando todos me agradecem pelos amigos que fizeram desde que começaram a escrever haiku”. Ao que o editor Fukasawa conclui: “realmente há um estilo próprio de poeta nessa vida”.

Hitomi Hoshino, até perto dos 100 anos ainda promovia encontros de seus alunos poetas em várias entidades nipo-brasileiras da capital paulista onde passou a residir a partir dos anos de 1950.

Dedicado ao comércio, trabalhou com Paulo Uemura, seu conhecido desde Pompeia – foi gerente da casa de Secos e Molhados na Rua Américo Brasiliense (na região do Mercado Municipal), depois sócio na importadora de ferramentaria e, depois com os filhos deles numa imobiliária.

 “Sempre lúcido, nunca vi igual”, afirma Rosa Yurie Nishimori, que foi uma de suas alunas no grupo Sakyu-Kukai  que se reunia mensalmente na sede da Associação Cultural Tottori Kenjin do Brasil. “Acho que fazer haiku ajuda a cabeça a se manter sempre ativa”, continua, lembrando que frequentou o grupo desde 2005, durante cerca de 10 anos.

“Quando comecei, o grupo tinha cerca de 30 praticantes, mas depois foi diminuindo, chegamos a 20 pessoas e, ao mesmo tempo, o sensei (professor) Hitomi, com seus 98 anos, também deixou de comparecer. Todos nós fomos ficando idosos”.

Hitomi Hoshino e o monumento no Parque do Carmo com seu poema

Nos Encontros, as flores como inspiração

“Hitokoeba wasurenagusa no me haeru”

(Quando se sente saudade crescem no coração dos brotos de miosótis *)

Autoria – Hitomi Hoshino – *Flor também chamada de “não-me-esqueças”

“Era um mestre muito atencioso, muito gentil e sempre tinha palavras de incentivo quando analisava os nossos poemas”, relembra Rosa. Destaca que nos encontros mensais, o professor sempre chegava com um maço com cerca de 10 diferentes variedades de flores. “Algumas eram nossas conhecidas, outras eram diferentes, novidades”, diz ela, “e sempre cada variedade era colocada no vaso e acompanhada de um papel com o respectivo nome da flor”. Após esse ritual preparatório, os alunos eram orientados a observá-las e procurar em seus poemas fazer referência a elas.

Era um desafio e uma alternativa interessante. Na tradição do haiku, a estação do ano (kigo) deve ser mencionada de alguma forma. Como no Brasil essa definição das estações é indefinida, as flores eram uma alternativa.

Tratava-se de seguir, na medida do possível, as orientações do mestre Nempuku Sato. Este, ao emigrar ao Brasil em 1927, na despedida, recebeu como presente de seu mestre Kyoshi Takahana (editor da famosa revista japonesa de haiku “Hototogisu”), o seguinte poema: “é sua missão arar a terra e criar um país de haiku”.

Aqui, no Brasil, Nempuku Sato adotou como filosofia (e defendeu-a arduamente) “o uso da beleza da natureza como a chave de sua poesia” (Vide mais informações no link: ndl.go.jp/brasil/pt/column/haiku.html).

Paulo conta que o pai, aos domingos costumava ir à feira da região da Praça de Árvore para comprar as flores para suas aulas. Freguês fiel, sempre ganhava algum desconto do dono da banca. 

Rosa relembra que, durante a semana, essas mesmas flores eram apresentadas nas aulas de diferentes grupos, sendo que, no último dia, os alunos poderiam levá-las para casa.

Publicação da revista de haiku Kogaminari

“Shirogane no  daitsunobue wo fuku kasumi”

(Alguém soprando uma grande buzina de chifre na névoa)

Autoria – Hitomi Hoshino

Matéria do Nikkei Shimbum (edição de 20/10/2021) informa que o mestre Hitomi Hoshino foi orientador de vários grupos tais como o Sakyu-Kukai (Sakyu se refere à dunas da província de Tottori e Kukai (encontro de poetas de haiku), Esperança-Kukai, Saúde – Kukai, Sakura – Kukai (em Itaquera, Parque do Carmo), etc.

Enfim, o cotidiano do sensei e haikaísta Hitomi era bastante movimentado. Além dos encontros fixos e especiais (chegou a viajar até Manaus para ministrar aulas), a partir de 1986 passou a publicar a revista “Kogaminari”, especializada em haiku. Mantida por assinantes, a revista reproduzia na capa as obras de vários pintores nipo-brasileiros – primeiro foi o pintor Manabu Mabe, depois da morte dele, passou a estampar as criações do filho, Yugo Mabe, Mitsutaka Kogure, Taro Kaneko, Tomoo Handa, e também da Miti (filha de Hoshino). As atividades da revista foram até 1994.

Além dos poetas que se reuniam em torno da “Kogaminari”, também circulavam publicações de outros grupos como “Asakage”, “Hachidori”  e “Brasil Haiku Bungaku”.

Teruo Hama, que foi vice-presidente da Comissão de Atividades Literárias do Bunkyo e coordenador da área de haiku, admite que é comum existir certas polêmicas entre os diferentes grupos. Assim, quando organizou o “Bunkyo Haiku Taikai” (Concurso Bunkyo de Haiku), há 12 anos, para garantir “a harmonia por meio do haiku”, decidiu convidar três representantes de cada um dos grupos maiores (Asakage, Kogaminari, Hachidori e Brasil Haiku Bungaku) como os responsáveis pela seleção dos trabalhos apresentados pelos participantes.

Hama acredita que “o haiku observa a natureza espalhando a alma, desenvolvendo o lado gentil e acredito que praticar essa poesia pode levar a um mundo harmonioso e pacífico”.

No jornal, sucessor do mestre 

“Kohi no hana akari yori deshi tsuki”

(A luz da lua que sai das flores de café)

Autoria de Nempuku Sato – haiku preferido de Hitomi Hoshino

Outra incumbência de Hitomi Hoshino também exigia constante dedicação.  Em 1968, aos 50 anos de idade, graças à indicação do mestre Nempuku Sato, passou a exercer o papel de “sendya” (selecionador) da coluna de Haiku do Jornal Paulista (e que, em 1998 juntou-se ao Diario Nippak originando o Nikkei Shimbum).

Uma tarefa de grande significado – no Jornal Paulista, fundado em 1947, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, Nempuku Sato tornou-se  primeiro “sendya” (selecionador) desse jornal. Nessa ocasião, também passou a publicar a revista “Kokague”. Assim, cerca de 20 anos depois, Hitomi era elevado à condição de sucessor de seu sempai (veterano). 

Essa tradição das colunas fixas (semanais ou quinzenais) de poesia (haiku e/ou tanka) dos jornais de língua japonesa é mantida até os dias atuais. No caso, anuncia-se um determinado tema e, baseado nisso, os interessados enviam seus poemas para o sendya. Este irá selecionar um determinado número para publicar na coluna com os respectivos comentários. 

Rosa Yurie Nishimori conta que, ainda hoje, participa da coluna de haiku que foi de responsabilidade de seu mestre Hitomi  – exerceu essa função até aos 96 anos de idade – e deixou como substituta a haikuísta Saoko Kosai.

Hitomi Hoshino publicou em 2007 a coletânea de seus poemas com o titulo “Kamiarizuki”.

Em 2017 foi homenageado na cerimônia do “Hakujusha Hyosho” (às pessoas acima de 99 anos de idade) promovida pelo Bunkyo como um dos eventos comemorativos à imigração japonesa no Brasil. Nesse mesmo ano, em 18 de abril, foi homenageado na Categoria Especial – Haiku, na 61ª edição do Prêmio Paulista de Esporte, promovido pelo Nikkei Shimbun/Jornal Nippak.

Antes, em 2 de julho de 1998, quando completou 70 anos, os amigos da Revista Kogaminari e todos os envolvidos, construíram um monumento no Parque do Carmo, ao lado do Bosque das Sakuras com a inscrição de seu poema: “Ah.. metasequoia(*) /cresce, cresce e sempre cresce / na verde paisagem”. (tradução de Goga Masuda).

 

(*) conífera de ramagem frondosa.

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