Falecimento de Paulo Yokota

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Faleceu, no último dia 19 de novembro, o economista Paulo Yokota, aos 83 anos de idade. Nos últimos três meses, passou por várias internações hospitalares, e veio a falecer de cirrose hepática. Foi sepultado no dia 20, no Cemitério São Paulo.

Formando em Economia na USP, Paulo Yokota fez parte da equipe de Delfim Neto (ministro e deputado federal várias vezes) considerado até hoje como “o economista mais poderoso do Brasil”. Em 1967, ao assumir o posto de ministro da Fazenda do governo do General Costa e Silva (1967/69), Delfim Neto chamou vários ex-alunos para sua equipe, entre eles Paulo Yokota e Akihiro Ikeda. Após essa passagem, ficaram conhecidos como os “Delfim Boys”.

Após esse primeiro cargo público, Yokota foi professor da FEA-USP, diretor do Banco Central (1971), presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), de 1979 a 1985, e comissário do governo brasileiro para Ciência e Tecnologia da Expo-Tsukuba, no Japão (1986).

Também atuou junto ao setor empresarial brasileiro e japonês – em 1972 foi presidente da Comissão Organizadora do Brasil para o 1º Comitê Econômico Brasil-Japão da Keindaren, foi membro da equipe preparatória da visita do Presidente João Figueiredo ao Japão, em 1984.

Em 2004/2005, como membro do Conselho do Século XXI Japão-Brasil (atual Conselho de Sábios Japão-Brasil), coordenou a programação da visita do Primeiro-Ministro Junichiro Koizumi ao Brasil e fez parte da comitiva preparatória do Presidente Lula ao Japão (2005).

Em nível privado, além de supervisionar os escritórios de uma trading brasileira na Ásia (para onde viajou centenas de vezes), foi consultor de empresas associadas ao escritório do Prof. Delfim Neto. Nos últimos 10 anos, foi responsável pelo blog “Ásia Comentada” que, de acordo com a apresentação, era uma “tentativa de aproximar a Ásia da América do Sul”. Com as primeiras publicações datadas de 2010, o blog totalizava atualmente 599 páginas.

Um olhar dos nisseis paulistanos

Dono de uma personalidade forte, Paulo Yokota era bastante persistente (muitas vezes, impaciente) com as coisas que decidia fazer. Falava alto, argumentava com rapidez, demovê-lo de suas decisões não era tarefa fácil (e isso, às vezes, desaguava em profundas mágoas).

Apesar de enfrentar dificuldades de relacionamento com alguns setores da comunidade nipo-brasileira (reclamava da demora em tomar decisões ou eram demasiadamente conservadores), a partir dos anos de 1990, Paulo Yokota aproximou-se mais dos nikkeis.

Talvez tenha sido resultado do novo desafio que assumiu. Em  1992 passou a responder pela presidência da Diretoria Executiva da Sociedade Brasileira e Japonesa de Beneficência Santa Cruz – administradora do Hospital Santa Cruz. Construído por japoneses, com o advento da Segunda Guerra Mundial o Hospital sofreu  intervenção do governo brasileiro e somente em 1990, após um intenso movimento cívico, sua administração passou a ser exercida por representantes da comunidade nipo-brasileira. Paulo Yokota, juntamente com outros executivos nikkeis, foi indicado, em 1992, para assumir a direção do Hospital (atualmente, Hospital Japonês Santa Cruz) e exerceu essa função por cerca de 10 anos.

Talvez não fosse exagero considerar como “intrigante” quando, na abertura de seu blog “Ásia Comentada”, em sua autoapresentação, Yokota se coloca como “economista brasileiro”, com “dupla nacionalidade japonesa”.

Paulo era primogênito de Morimasa Yokota, emigrante da província de Saitama, chegado em 1930 e que fixou residência na cidade de São Paulo em 1935 e, durante 30 anos, exerceu a profissão de alfaiate (no bairro da Liberdade). 

Morimasa, em 1994, foi condecorado com a “Medalha Anchieta” e recebeu o “Diploma de Gratidão”, graças ao projeto apresentado pelo vereador Aurélio Nomura, em reconhecimento às suas destacadas atividades como beisebolista. Chegou a publicar, em japonês, em 1973, o livro “História do Beisebol no Brasil” – primeiro volume, destacando os primórdios dessa atividade em nosso país,

Paulo não demonstrava muita empatia com o beisebol, sua preferência estava no setor econômico: em 1997, publicou o livro (português/japonês), “Fragmentos sobre as Relações Nipo-Brasileiras no Pós-Guerra”, reunindo capítulos de sua autoria e de especialistas do setor.

Em 2008, em meio às comemorações do Centenário da Imigração Japonesa, quis fazer jus à sua geração: publicou o livro “O Olhar dos Nisseis Paulistanos – Integração na Sociedade Brasileira”, para falar daqueles descendentes (como ele), nascidos e criados na cidade de São Paulo e frequentemente esquecidos pelos pesquisadores.

Paulo Yokota também atuou na diretoria do Bunkyo: de 1995/1998 foi 2º Vice-Presidente do Conselho Deliberativo na gestão do Presidente Atushi Yamauchi e de 1999/2002 foi o 1º Vice-Presidente do Conselho Deliberativo na gestão de Hideo Iwasaki. Depois, de 2009 a 2015 foi membro do Conselho Superior de Apoio e Orientação.

No final de 2020, em plena pandemia, foi um dos cinco Condecorados de Outono, com a outorga por Sua Majestade Imperador  Naruhito, da  Ordem do Sol Nascente, Raios de Ouro com Laço. Entre os “principais fatos meritórios” destacados pelo governo japonês estão: contribuição para o “fortalecimento das relações econômicas entre o Japão e o Brasil”, como também “ajudou na solução dos problemas de regularização das terras dos agricultores japoneses em todo o Brasil”. Destaca ainda que iniciou o “plano de modernização do Hospital Santa Cruz e, em 10 anos, concretizou a modernização do Hospital”.

Lamentavelmente, a pandemia impediu a comunidade nipo-brasileira de realizar a tradicional homenagem que presta aos seus condecorados – teria sido um momento de exaltar seus feitos e de promover a confraternização entre amigos e familiares!

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