Falecimento do artista plástico Kazuo Wakabayashi

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Faleceu, neste último dia 2 de dezembro, aos 90 anos de idade, o artista plástico Kazuo Wakabayashi, um dos ícones do universo das artes plásticas de nosso país.

Natural de Kobe, nascido em 1º de maio de 1931, Wakabayashi emigrou ao Brasil em 1961, aos 30 anos de idade (naturalizou-se brasileiro em 1968).

Já aos 16 anos frequentava a Escola de Belas Artes e a Academia Niki em Tóquio e as aulas de desenho e pintura. Em 1950, desistiu de ingressar no curso de Arquitetura para dedicar-se à pintura. De 1940 a 1960, Wakabayashi vinha participando intensamente da vida artística (fora premiado em 1947, 1950, 1954 e 1959 em vários salões japoneses). Em 1960, foram duas mostras individuais em Kobe.

Ao chegar ao Brasil, em 1961, a bordo do navio America Maru, recém-casado com Hikari Sakamoto, também trazia uma carta de apresentação do pintor Waichi Tsutaka (considerado como um dos principais pintores abstratos japonês do pós-guerra e que já participara da Bienal em São Paulo), dirigida a Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Recebido por eles, logo se tornou membro do Grupo Seibi.

No Brasil, a pintura abstrata – estilo adotado por Wakabayashi – estava em alta. E, Manabu Mabe também – em 1959 conquistara o prêmio de Melhor Pintor Nacional na V Bienal de São Paulo. O reconhecimento de seu talento em nosso país não demorou – em 1963 faz sua primeira exposição individual na Galeria Tenreiro, no Rio de Janeiro. Também conquistou a medalha de ouro no 12º Salão Paulista de Arte Moderna e no 7º Salão do Grupo Seibi de Artistas Plásticos. E em 1966, o primeiro prêmio no Salão de Abril do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ. Em 1967 foi premiado na Bienal Internacional de São Paulo.

A partir disso, seguiu-se uma sequência de exposições individuais e coletivas tanto no Brasil como no exterior, e uma série de prestigiosos prêmios. Artista dos mais dedicados ao ofício, expôs seus trabalhos no redor do mundo. Só para citar alguns eventos: Bienal de São Paulo; Nipo-Brazilian Painting Today (Washington, Oakland e Tóquio); Artistas Nipo-Brasileiros (Escandinávia); Exposição de Belas Artes Brasil-Japão (Quioto, Tóquio, Atami, São Paulo e Rio de Janeiro); Tradição e Ruptura (São Paulo); Bienal do Brasil Século XX (São Paulo), entre outros (fonte: https://laart.art.br/blog/kazuo-wakabayashi/).

“As produções artísticas de Kazuo Wakabayashi podem ser divididas em duas etapas”, escreve a professora Maria Fusako Tomimatsu, do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina que, em 2014, defendeu a tese de doutorado sobre a vida do pintor e, em 2017, foi publicada em livro – “Kazuo Wakabayashi: Um Imigrante Artista”, pela Editora Porto de Ideias.

“A primeira é um conjunto de obras de cores escuras, se tom universal e sem qualquer indicação de sua origem étnica”, destaca a professora. “Já a segunda fase, que se inicia por volta dos anos de 1980, consiste em obras de cores vibrantes cujo detalhe apresenta elementos da cultura japonesa, tais como personagens do teatro kabuki, estampas da indumentária tradicional e outros elementos japoneses”.

“Sua obra, que demorava meses para ser concluída devido ao complexo processo que ele criou, reúne técnica e poética intensa”, ressalta a apresentação da exposição de Kazuo Wakabayashi, realizada em outubro passado, no Espaço Arte M. Mizrahi, em São Paulo. A mostra comemorou os 90 anos de idade do artista e 80 dedicados à pintura e reuniu 27 obras. “Ele é, seguramente, uma das expressões mais altas da pintura nipo-brasileira, um mestre em seu ofício”, destacou Enock Sacramento, crítico de arte e curador da exposição.

Celebração do Ano Novo e abertura das comemorações dos 110 anos da imigração japonesa, no Hotel Tivoli (SP), no dia 7 de janeiro de 2018. Ladeados por Harumi Goya (esq) e Yoshiharu Kikuchi, o artista Kazuo Wakabayashi e sua obra.

Logomarca dos 110 anos da imigração japonesa

Kazuo Wakabayashi, ao chegar ao Brasil, em 1961, passou a fazer parte do Grupo Seibi (fundado em 1935) formado por artistas descendentes de japoneses e que, anualmente, promovia exposições no Bunkyo. 

Membro atuante no grupo, Wakabayashi discordava de certos procedimentos adotados, principalmente por alguns dos membros veteranos. No início dos anos de 1970, essas diferenças levaram a uma série de desavenças que chegaram até aos jornais nipo-brasileiros e provocaram certo afastamento dele da comunidade nipo-brasileira.

Esse discreto distanciamento, de certa forma, foi quebrado com o advento da comemoração dos 110 anos da imigração japonesa ocorrida em 2018. 

Harumi Arashiro Goya, então presidente do Bunkyo e presidente da Comissão Organizadora, e Yoshiharu Kikuchi, então presidente do Comitê Executivo da Comissão Organizadora, foram pessoalmente convidá-lo para criar a logomarca dos 110 anos.

Um pedido que aceitou com certa relutância (mais detalhes na entrevista no https://www.chadourasenke.org.br/especial/0014/). Em 19 de maio de 2017, durante cerimônia de oficialização da Comissão Organizadora das festividades dos 110 anos, Wakabayashi apresentou a logomarca: a imagem de dois tsuru (grou) – um de cor vermelha (alusão à bandeira japonesa) e outro, amarelo com detalhes em verde e azul.

Na ocasião, aos 86 anos de idade, residindo há mais de 50 anos no Brasil, ao apresentar sua obra justificou: “Brasil osewa ni natta kimochi wo arawashimashita” (Expressei meu sentimento de gratidão ao Brasil).

Talvez, ao adotar a dupla de tsuru a referência tenha sido a tradicional lenda japonesa “Mil penas de tsuru”, remetendo às suas fontes ancestrais.

Nesse sentindo, é esclarecedor o texto do critico de arte Otávio Tavares de Araujo, para o catálogo da exposição de Wakabayashi em 2015: como acontece “com artistas mais maduros”, sua obra “ficou mais colorida, mais alegre, mais terrena; a transcendência passa a ser menos metafísica e mais gozosa, feita de prazer da contemplação de cores gárrulas”.

“Não é o único a retomar a figura e resgatar as fontes ancestrais”, continua o crítico, “o fato é que na velhice, compreensivelmente, Wakabayashi volta, pelo menos em espírito, às origens”. E, entre esses elementos “explicitamente figurativos” estão os tsuru que surgem justapostos a formas geométricas.

Neste contexto, a sua escolha do tsuru para o logotipo dos 110 anos da imigração japonesa representou uma volta às origens para expressar o sentimento de gratidão pelo acolhimento neste país.

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